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Imagem: Róbert Görföl - Thermal Media
Quem cava melhor? Campeonato de coveiros completa dez anos e quebra tabus da profissão
Em entrevista ao PAGE NOT FOUND, a presidente de associação responsável pela competição na Hungria conta seus detalhes e bastidores
Por Alessan Silva
14 de Setembro de 2026 às 06:50
O que para muitos pode ser um ofício "sombrio" ou assustador, na Hungria é levado tão a sério que virou até competição. No início de setembro, a Associação Húngara de Administradores e Mantenedores de Cemitérios (MTFE, em húngaro) realizou a décima edição do Campeonato Nacional de Abertura de Covas, que existe no país desde 2016 e atrai curiosos, entusiastas e admiradores da profissão.
Ao todo, 19 duplas de coveiros se reuniaram em 5 de setembro numa eletrizante disputa pela equipe que produziria a melhor cova em melhor tempo. Apesar de inusitado, o torneio engaja profissionais do ramo há anos e virou uma tradição na Hungria, com direito a premiação aos vencedores, avaliada em 200 mil florins húngaros (cerca de R$ 3.250).
Um jogo com regras Muito além da velocidade, o competidor precisa se atentar aos detalhes milimétricos de como se produzir uma boa cova. Em entrevista ao PAGE NOT FOUND, a presidente da MTFE, Katalin Palkovics, revela que os jurados analisam pontos que vão além da rapidez e agilidade de quem cava.
"A precisão e a execução correta também são indispensáveis. Na realidade, uma cova não pode ser feita apenas de forma rápida. Ela precisa estar nas medidas corretas, bem preparada e finalizada com zelo e dignidade. A competição reflete um princípio fundamental do nosso ofício: profissionalismo significa realizar o trabalho com eficiência, precisão e respeito", disse Katalin.
Na edição deste ano, os vencedores concluíram a missão com o tempo de 1 hora e 21 minutos. Em teoria, a missão de todos é produzir uma cova que tenha um padrão de 2 metros de comprimento, 80 centímetros de largura e 1,6 metro de profundidade. Quem adentrou nesta aventura teve apenas pás e picaretas disponíveis para concluir o desafio.
E não basta apenas cavar pura e simplesmente, é preciso entregar qualidade no trabalho. Duplas que conseguirem produzir o buraco, mas, eventualmente, verem as paredes das covas caírem ou não estarem dentro das medidas oficiais do campeonato.
Por trás do inusitado, a valorização Katalin conta que, apesar da impressão popular de "ideia bizarra", a associação promove a competição com um propósito nobre: valorizar a profissão de coveiros. Segundo ela, muitos espectadores, a primeira vista, acham a proposta inusitada, mas ao fim, entendem que há muito valor no trabalho realizado pelos profissionais e aumentam sua admiração e respeito pelo trabalho feito por eles.
"Para quem atua nessa área, ser valorizado publicamente como um profissional altamente qualificado tem um valor imenso. Passei muitos anos trabalhando no setor funerário e passei a acreditar fortemente de que precisamos mudar como a sociedade enxerga todo o nosso segmento", declarou a presidente.
Entre os que participam da competição, a visibilidade é, muita das vezes, vista como até mais importante que o prêmio em dinheiro ou o orgulho de se sagrar campeão do torneio. Na torcida, famílias com crianças, jornalistas e entusiastas se reúnem em grande número para exaltar um trabalho que, como a própria associação afirma, parece "invisível" no dia a dia da sociedade.
"Estamos presentes quando as pessoas se encontram em seu estado de maior vulnerabilidade, mas a sociedade raramente reflete sobre a competência técnica e a força emocional necessárias para realizar esse trabalho com excelência", completou Katalin.
O trabalho da associação Por trás da inusitada disputa de pás e cronômetros está a Associação Húngara de Mantenedores e Operadores de Cemitérios (MTFE), criada em 1998 com a missão de transformar "cemitérios cinzentos em verdadeiros jardins de memória e acolhimento", como eles próprios definem em seu site oficial.
Reformulada em 2015 para dar voz aos trabalhadores do setor e negociar melhorias para a categoria, a organização batalha para que o público entenda que cuidar da despedida exige técnica, zelo e preparo.
"Temos a tendência de notar as flores e a cerimônia, enquanto as pessoas que preparam a cova em si permanecem quase invisíveis. Mas, sem o trabalho delas, não existe sepultamento digno", destacou a presidente da associação.
Katalin tem insistido que a maior dificuldade do setor funerário húngaro é justamente a falta de reconhecimento social e a escassez de profissionais dispostos a ingressar na área.
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